Empresa que já foi de Verruck é suspeita de cobrar ‘pedágio’ por incentivos fiscais em MS
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Empresários denunciam suposto esquema de tráfico de influência na Semadesc
Empresários que sonham com incentivos fiscais do Governo de Mato Grosso do Sul denunciam suposto esquema para cobrar “pedágio” pelo acesso aos benefícios. Segundo os relatos, o mecanismo sofisticado tenta disfarçar a suposta prática de tráfico de influência na Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).
No entanto, os indícios apontam para participação do ex-titular da pasta Jaime Elias Verruck.
Ele foi secretário estadual de janeiro de 2015 a 1º de abril de 2026. Neste período, a Agricon Consultoria de Empresas Ltda. se consolidou como uma das principais empresas que monta projetos para as empresas que desejam benefícios fiscais em Mato Grosso do Sul.
Com “pacotes” a partir de R$ 100 mil, a Agricon promete ser um “ponto de apoio e segurança” para empresários dos setores industrial e comercial que tentam pagar menos impostos ao Governo de Mato Grosso do Sul. Conforme fontes ouvidas pela reportagem, tudo é feito para dar ar republicano à negociação.
No entanto, veladamente, contratar a Agricon supostamente representaria a esperança de “facilidades” para conseguir demandas junto à Semadesc. Detalhe é que Verruck já foi sócio da Agricon.
Mudanças no CNPJ afastaram Verruck da Agricon ‘no papel’
“O japonês é muito próximo do secretário. Então, entre escolher outra, e escolher a Agricon, que todos dizem que é do Verruck mesmo, quem você acha que a gente vai escolher? Estamos no Brasil. A gente se aperta um pouco mais e paga, né?”. A análise é de um diretor que indicou para a empresa em que atua, de fora de MS, o suposto “caminho das pedras” para agilizar a isenção fiscal em MS.
O “japonês” ao qual ele se refere é Luiz Tanahara, atual sócio majoritário da Agricon. O economista teve outros negócios em sociedade com Jaime Verruck.
Informação divulgada pela própria Agricon em seu site institucional confirma que a empresa atua desde 1993.
No entanto, naquela época, chamava-se IAEE (Instituto Agricon de Educação Executiva) e atuava com o CNPJ 37.226.974/0001-06. No dia 9 de maio de 2000, Verruck e Tanahara assumiram o negócio e ingressaram como sócios da IAEE, que foi extinta oficialmente somente em outubro de 2018, três anos depois de Verruck ingressar como secretário de governo.
Enquanto isso, em março de 2001, Tanahara abriu outro CNPJ (04.347.136/0001-23), também com o nome de Agricon, mas desta vez sem Verruck como sócio. O serviço prestado é o mesmo: “Atividades de consultoria em gestão empresarial, exceto consultoria técnica específica”, conforme dados oficiais e públicos da Receita Federal.
Conforme juristas ouvidos pela reportagem, existem vários indícios de sucessão empresarial, como a manutenção do nome comercial, a continuidade da mesma atividade econômica, o sócio em comum e até mesmo o endereço ligado ao ex-sócio.

Mesmo endereço e e-mail do Sistema S
A ligação entre Tanahara e Verruck vai além da Agricon. Os dois foram sócios também em um negócio de certificação de produtos agropecuários chamado Biocert, que funcionou de abril de 2004 a maio de 2006. O endereço desse empreendimento era Rua Joaquim Murtinho, 1.000, Itanhangá Park.
O imóvel é a atual sede da Agricon, mas também já abrigou a empresa Instituto Valor Oeste de Capacitação Profissional para Executivos, que tinha a mesma natureza dos outros negócios envolvendo Verruck e Tanahara. Esse instituto começou a atuar em abril de 2002 e teve seu CNPJ baixado em fevereiro de 2015, um mês após Jaime assumir cargo de secretário no Governo do Estado. O endereço de e-mail cadastrado junto à Receita Federal para esse CNPJ era o mesmo utilizado por Verruck quando era diretor na Fiems, com final @ms.senai.br.
A reportagem do Jornal Midiamax esteve no prédio da Rua Joaquim Murtinho, 1.000, na quinta-feira (30), para buscar esclarecimentos. No entanto, a equipe foi recebida por um funcionário afirmando que Tanahara estaria viajando.
O funcionário com uniforme e crachá da Agricon confirmou o e-mail do chefe e disse que todos os sócios estavam fora.
Por fim, a equipe reforçou pedido para enviar mensagem ao diretor da Agricon, para que pudesse retornar os contatos da reportagem. No entanto, até esta publicação, não houve resposta.
Promessa de ‘facilidades’ para incentivos fiscais
O Jornal Midiamax teve acesso a um contrato, que supera R$ 100 mil, em que uma indústria pleiteava benefícios fiscais junto ao Governo de MS.
O acordo entre as partes evidencia que o trabalho todo, afinal, fica a cargo do empresário, que é responsável por “correr atrás de tudo”: juntar vasta documentação, apresentar projetos ambientais, sanitários e de engenharia, elaborar plano de marketing e operacional, pesquisas de mercado, preparar todos os ofícios e providenciar assessoramento técnico para defesas relativas a irregularidades administrativas.
Já a Agricon, no contrato, aparece como responsável apenas por “realizar os serviços dentro das normas exigidas”, e pelo “levantamento de dados”. Um dos clientes ouvidos pela reportagem confirmou os termos do contrato, em que a Agricon atua como uma mera intermediadora junto à Semadesc.

Não pagou, processo parou
A reportagem apurou, inclusive, que um desses processos foi “abandonado” pela Agricon após o cliente ter problemas financeiros e atrasar as parcelas da “consultoria”. Assim, mesmo após o pedido já estar protocolado, a análise está travada porque o dinheiro parou de cair na conta da Agricon.
O caso está na Justiça e tem audiência marcada para os próximos dias.
“A gente não pagou algumas parcelas por problemas internos. Em determinado momento, eles [Agricon] pararam. Foi protocolado já, mas não pagamos e o negócio ficou parado. Precisam dar andamento dentro da Semadesc”, resume o empresário.
Verruck levou Agricon para captar clientes

As ligações entre o ex-secretário da Semadesc Jaime Verruck com a Agricon são de conhecimento de todos na Secretaria. Em agosto de 2024, a Semadesc levou empresas de Mato Grosso do Sul para a Ficomex (Feira Internacional de Comércio Exterior do Brasil Central), em Goiânia.
Uma delas foi a Agricon Consultoria, que teve destaque no estande de MS, com direito a foto do ‘ex-sócio’ e então secretário estadual de Mato Grosso do Sul.
Conforme informações que foram divulgadas pela própria Semadesc, grupo restrito de 20 empresários foi selecionado para expor seus serviços e captar clientes no evento. Não há detalhes sobre quem bancou a presença da Agricon nas agendas oficiais de MS.
No entanto, um dia antes de deixar o cargo para concorrer às eleições deste ano, Jaime Verruck publicou a destinação de mais de R$ 7 milhões para a Fiems, onde já foi diretor, executar “missões comerciais” para divulgar MS aos empreendedores de fora.
O convênio com a Fiems foi publicado no dia 10 de abril com assinatura de Verruck, mesmo após ele já ter deixado o cargo no governo para disputar eleições pelo Republicanos. No entanto, três dias depois, o Diário Oficial trouxe a nova publicação do extrato de contrato. Dessa vez, com a assinatura do substituto de Verruck na pasta, Artur Falcette.
Apesar da correção, servidores afirmam à reportagem que os trâmites administrativos foram conduzidos durante a gestão do ex-secretário, que ficou mais de 11 anos à frente da pasta de desenvolvimento econômico de MS.
Agricon pede, Verruck assina: economistas denunciam relação ‘nada republicana’
Entre economistas e servidores, a ligação nada republicana soa óbvia. Segundo ex-conselheiro do Corecon-MS (Conselho Regional de Economia de Mato Grosso do Sul) ouvido pela reportagem, até a entidade foi “colonizada” pelo grupo ligado ao ex-secretário e ao Sistema S.
Dos três sócios minoritários de Tanahara, dois deles ocupam cargos na diretoria do conselho que fiscaliza a atividade de economistas e consultorias. Inclusive, a tabela de consultorias do Corecon é utilizada oficialmente pela Semadesc para quem busca obter incentivos fiscais.
“A ligação dele com a Agricon é pública, notória e documental. Mesmo baixando o CNPJ original, do qual ele era sócio, e abrindo outro, só fica clara a intenção de se afastar no papel. Daí, destina dinheiro público para a Fiems, que leva a Agricon para captar clientes em eventos, e ainda vende essa promessa velada da facilidade nas isenções”, explica o ex-conselheiro.
“Gente, isso é moralmente vergonhoso e todos os indícios de tráfico de influência estão aí, para quem quiser ver. Porque, no final, quem assinou os decretos de isenção é o secretário; ou seja, ele assinava liberando para os clientes da empresa da qual ele mesmo foi sócio. Como que explica isso?”, questiona.
A reportagem tenta, desde quarta-feira (29), falar com Jaime Verruck para explicar a relação dele com a Agricon e do endereço na Rua Joaquim Murtinho, 1.000, assim como as suspeitas de tráfico de influência, bem como os critérios para levar a Agricon a uma feira internacional. Os questionamentos não foram respondidos, mas o espaço segue aberto para esclarecimentos.
O Jornal Midiamax também questionou, na quarta-feira (29), a Semadesc sobre as suspeitas levantadas pelos empresários ouvidos pela reportagem sobre tráfico de influência envolvendo o ex-chefe da pasta, bem como os critérios adotados para a escolha de empresas levadas ao evento, informações de contratos firmados com Agricon e sobre as implicações éticas da ligação do diretor da empresa com Verruck em processos para concessão de incentivos fiscais em MS. Também não obtivemos retorno até esta publicação.
Verruck presidia comissão que concede incentivos fiscais

Cadastrada para exercer serviços de consultoria a empresas, a Agricon tem como carro-chefe o serviço de ajudar indústrias a conseguir incentivos fiscais para redução do pagamento de ICMS e ISSQN.
Ou seja, a empresa de Tanahara atua diretamente na pasta que era chefiada, até 1º de abril, por seu ex-sócio em dois empreendimentos: Jaime Elias Verruck.
No site institucional da Agricon, a empresa se vangloria e exibe alguns de seus clientes que foram contemplados por benefícios fiscais. A empresa também atende a Instituições do Sistema S, apontado como “elo” entre os participantes da suposta operação.
O processo consite na elaboração de projeto que, ao fim, é apresentado ao Fórum Deliberativo do MS-Indústria, presidido por Verruck até 1º de abril e que tem também representante da Fiems como integrante.
Conforme os dados mais recentes divulgados pela Sefaz (Secretaria de Fazenda de MS), referentes ao ano de 2024, o Estado de Mato Grosso do Sul concedeu pouco mais de 15 mil benefícios fiscais, que totalizaram renúncia de R$ 6.819.972.338,00 naquele ano.
O Jornal Midiamax tentou ouvir a Fiems sobre a ligação entre seu ex-diretor e a Agricon e a atuação de seu membro no conselho que concede incentivos fiscais, mas também não obtivemos retorno. O espaço segue aberto.
Serviços prestados ao governo
Enquanto Verruck comandava a Semadesc, a Agricon de Tanahara também foi agraciada com um contrato de R$ 322.449,00 com a Fundtur (Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul) para elaborar um plano de marketing para a Rota dos Ipês de Campo Grande.
Além disso, a Agricon também foi responsável por elaborar o plano que norteia o programa MS Renovável, lançado em parceria com a Fiems, que contou com assinatura do presidente da entidade, Sérgio Longen.
Porém, não consta publicado no Portal Transparência nem no Diário do Estado o extrato do contrato firmado para esse serviço.
Fonte: Midiamax







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