4 anos de solidão: o duro dilema da Guerra na Ucrânia
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48 meses após a invasão total da Ucrânia pela Rússia, a guerra continua sem perspectivas de fim e evidencia o desgaste físico e psicológico de uma nação abandonada pelo seu principal aliado, os Estados Unidos
Mais um aniversário tenebroso chegou, 4 anos da guerra mais letal no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Nesse período de dias exaustivos, noites intermináveis e questões ainda sem respostas, duas nações que já foram uma, continuam a batalhar por ideais opostos, movidas por valores diametralmente diferentes. Um conflito visto por muitos como assimétrico, uma batalha de Davi contra Golias, a personificação geopolítica dadicotomia ideológica que divide o mundo há mais de 100 anos e que hoje se tornou uma guerra de atrito exaustiva.
Do aspecto militar e territorial a Rússia tem a vantagem. Após 4 anos de guerra são quase 21% do território ucraniano ocupado e posições sólidas conquistadas. A Ucrânia, com um arsenal e uma população consideravelmente menor, demonstrou grande resiliência e unidade nacional frente à invasão, mas não conseguiu recuperar a maior parte dos territórios anexados. Entretanto, os ganhos russos e a manutenção de parte do território nas mãos dos ucranianos vieram através de muito sangue dos dois lados. Cálculos do Instituto Kiel, que monitora a guerra desde o princípio, apontam para quase 2 milhões de casualidades de guerra em ambos os lados. Levantamentos mais recentes demonstram que cerca de mil soldados russos e ucranianos morrem por dia no front e nos diversos pontos de patrulha na extensa linha de frente. O saldo é a perda de centenas de milhares de vidas,sobretudo jovens homens, em países com baixas taxas de natalidade e já com graves problemas de dinâmicas demográficas entes da guerra começar.
Economicamente a guerra está se mostrando um desastre para os dois beligerantes. Tanto russos, quanto ucranianos são perdedores nesse quesito. Segundo um relatório feito pelo Banco Mundial, a União Europeia e a ONU, seriam necessários 600 bilhões de dólares (cerca de 3 trilhões de reais) para reconstruir a Ucrânia após a guerra. A maior parte das perdas infraestruturais estão em domicílios, pontes, portos e usinas de energia severamente bombardeadas ou destruídas pelos russos. Com milhões de refugiados ucranianos em outros países e parte significativa da juventude masculina morta ou ferida pela guerra, as perspectivas econômicas para a reconstrução da Ucrânia no pós-guerra também seguem desanimadoras. Os esforços de reconstrução deverão ser conjuntos envolvendo reformas institucionais e muita paciência para que o país retorne ao patamar de 2021.
A Rússia conseguiu resistir às sanções ocidentais de forma surpreendente pelos primeiros anos. O impacto desejado por Joe Biden e os aliados europeus ainda não foram atingidos, muito pelo fato de Vladimir Putin ter preparado seu país para uma economia de guerra com sólidas reservas financeiras. Todavia, tais reservas já dão claros sinais de esgotamento. O prolongamento da guerra por um período muito maior do que o inicialmente imaginado pelo Kremlin, faz com que atualmente a Rússia desembolse mais de 500 milhões de dólares por dia para continuar lutando, cifra que se somada no período de um ano, supera, e muito, os gastos anuais do país com saúde e educação somados. O isolamento do sistema bancário global e a proibição do acesso aos componentes e tecnologias ocidentais também defasaram consideravelmente a indústria e as empresas russas. A inflação de itens básicos e a desvalorização do rublo também dificultam a vida para o cidadão médio e trazem aos poucos a fadiga econômica para pessoas muito longe da fronteira com a Ucrânia.
Ao observarmos a geopolítica muitos dos objetivos russos não foram alcançados, a começar pela ampliação da OTAN. Segundo a versão oficial de Moscou, uma das razões para a invasão do país vizinho, seria a intenção da Ucrânia se juntar aos aliados ocidentais. Essa mesma aliança ganhou mais dois novos membros desde 2022, a Finlândia e a Suécia. Ambos os países nórdicos adotaram uma posição de neutralidade durante a Guerra Fria, mas se sentiram ameaçados após a invasão russa na Ucrânia e prontamente adentraram a aliança militar ocidental. A Finlândia compartilha uma fronteira de 1300 km com a Rússia e possui dezenas de milhares de soldados bem treinados em um país com conscrição obrigatória. A Suécia além de também ter uma marinha e um exército de alto calibre, produz caças dos mais modernos que agora serão também utilizados por mais países da OTAN.
Também nesse mesmo aspecto, a Rússia conseguiu tornar a Europa mais unida, fazendo com que os gasto militares disparassem, sobretudo nos países mais ricos. Um novo megapacote de investimentos em defesa dentro da União Europeia deverá ultrapassar os 800 bilhões de euros na próxima década. O isolamento continental da Rússia antes era uma formalidade política, hoje é uma realidade econômica, militar e estratégica.
A postura dos Estados Unidos talvez tenha sido a mais complexa de se analisar durante esses 4 anos. Enquanto Joe Biden deu apoio ideológico e financeiro à Ucrânia por considerar o país como um aliado com os mesmos valores, Donald Trump preferiu o caminho do abandono. Seja na ajuda humanitária e militar, seja na mediação do conflito, a postura do atual governo republicano optou por favorecer Vladimir Putin e seus objetivos de força bruta ao respeito ao direito internacional. A posição da Ucrânia após a escolha de Trump, se tornou ainda mais desafiadora. Os ataques aéreos ficaram mais intensos e a capacidade de defesa mais escassa. O sentimento de gratidão que muitos ucranianos nutrem aos Estados Unidos da América pela ajuda fundamental no início da invasão, aos poucos dá espaço a questionamentos sobre as reais intenções dos políticos e empresários norte-americanos no país do Leste Europeu.
Aquilo que se observa em 2026, assim como se observou em 2022 é que a Ucrânia não aceitará uma capitulação, por mais que Moscou e Washington defendam essa posição. O sentimento de solidão permeia as ruas de Kharkiv e de Kiev, a exaustão física e os traumas de guerra permanecem no coração de milhões de ucranianos, mas a resiliência de continuar defendendo suas posições é uma constante que acompanhará esse povo até o desfecho dessa guerra.
Fonte: Jovem Pan







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