MISTÉRIO NO MONTE ARARAT: Ciência avança na investigação de formação geológica associada à Arca de Noé

Com escaneamento 3D, georradar e análises laboratoriais de solo, pesquisadores identificam cavidades subterrâneas e alta concentração de matéria orgânica na Formação Durupınar, mas reforçam a necessidade de cautela científica.
Uma expedição arqueológica e geofísica de grande porte na província de Ağrı, no leste da Turquia, está reabrindo um dos debates mais antigos e intrigantes da história e da arqueologia mundial. Utilizando tecnologias de ponta como georradar, tomografia de resistividade elétrica e escaneamento a laser, cientistas turcos e internacionais debruçam-se sobre a Formação Durupınar — uma estrutura natural com formato semelhante ao de um casco de embarcação e 157 metros de comprimento — para verificar se o local abriga os vestígios da lendária Arca de Noé.
Apesar do fascínio popular e dos indícios preliminares revelados por levantamentos recentes, a comunidade científica mantém uma postura cautelosa: até o momento, não há comprovação definitiva de que a estrutura seja uma construção humana ou a embarcação descrita nos textos bíblicos.
Tecnologias não invasivas revelam cavidades no subsolo
A pesquisa é conduzida por universidades turcas em parceria com pesquisadores internacionais e o projeto Noah's Ark Scans. Para mapear o interior do terreno sem causar degradação ao ecossistema local ou alterar camadas estratigráficas, a equipe adotou uma abordagem estritamente não invasiva.
A combinação de três métodos principais tem guiado os trabalhos:
Georradar (GPR): Emissão de ondas eletromagnéticas de alta frequência para mapear variações de densidade no subsolo.
Tomografia de Resistividade Elétrica (ERT): Medição da condutividade elétrica do terreno para identificar lacunas, rochas e materiais alterados.
LiDAR (Light Detection and Ranging): Escaneamento a laser aerotransportado para gerar um modelo digital de elevação da superfície com precisão milimétrica.
Os dados processados revelaram anomalias estruturais sob a superfície, incluindo formações angulares contínuas que se assemelham a corredores e divisões internas organizadas em formato de salas.
Matéria orgânica e achados na região
Outro elemento que chamou a atenção da equipe científica surgiu das análises laboratoriais de amostras de solo coletadas no local. Os testes apontaram que o interior da Formação Durupınar apresenta uma concentração de matéria orgânica quase três vezes maior do que as áreas externas de controle.
Além disso, a investigação estendeu seu raio de busca até o povoado vizinho de Arzap, onde foram identificados grandes blocos de pedra perfurados. Uma das hipóteses trabalhadas pelos pesquisadores é de que essas rochas possam ter servido como drogue stones — antigas âncoras de arrasto utilizadas por embarcações de grande porte da Antiguidade para manter a estabilidade em águas agitadas. A função exata desses artefatos, contudo, ainda depende de confirmação petrográfica e cronológica.
Das fotos aéreas de 1959 ao apoio acadêmico
A Formação Durupınar não é uma descoberta recente. O local foi identificado originalmente em 1959 pelo capitão İlhan Durupınar, da Força Aérea Turca, durante um mapeamento fotográfico de rotina. A simetria da estrutura e suas dimensões de 157 metros — equivalente a aproximadamente 300 côvados, medida citada na narrativa do Gênesis — atraíram exploradores e curiosos ao longo de décadas.
O cenário começou a mudar quando o governo turco e instituições acadêmicas locais formalizaram parcerias para dar um caráter estritamente científico às buscas, conforme reportado por veículos de imprensa como a Zero Hora (GZH). A intenção é substituir especulações por dados geológicos e arqueológicos mensuráveis.
Ceticismo geológico e os próximos passos
A despeito dos novos dados, a geologia tradicional classifica a Formação Durupınar como um fenômeno natural conhecido como sinclinal ou uma formação de fluxo de lama (mudflow) moldada pela erosão de solos argilosos ao redor de blocos rochosos.
Para dirimir as dúvidas, a equipe planeja iniciar etapas mais profundas de amostragem. O cronograma prevê perfurações de testemunho (core drilling) para extrair material rochoso e sedimentar diretamente das cavidades identificadas pelo georradar. Caso os resultados indiquem a presença de madeira petrificada, compostos sintéticos antigos ou materiais não geológicos, os pesquisadores solicitarão autorização do governo turco para iniciar escavações arqueológicas sistemáticas no local.







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